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Os Estados Unidos exigiram que a África boicotasse os cereais russos?

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Dizem que diplomatas americanos na África alertaram uma dúzia de estados africanos sobre a compra de cereais russos. De acordo com o Departamento de Estado dos EUA, seria "grão roubado" na Ucrânia. A mensagem dos EUA não está sendo transmitida, pois os países africanos observam cuidadosamente as negociações de Ancara.

O New York Times revelou recentemente queuma missiva do Departamento de Estado dos EUA foi enviada coletivamente aos ministérios das Relações Exteriores de 14 países “incluindo a maioria dos países africanos”. A carta trataria da movimentação de cargueiros russos carregados de cereais - especialmente trigo - com destino a esses países.

Segundo a diplomacia americana, seria "trigo saqueado na Ucrânia". O jornal norte-americano comenta: “O medo dos grãos dos EUA só aumentou o dilema para os países africanos, muitos dos quais já se sentem presos entre o Oriente e o Ocidente”.

Mas, na realidade, a revelação deste "alerta", que muitos países como Senegal, Argélia e Etiópia negam ter recebido, surge na altura certa após a visita de Macky Sall à Rússia na passada sexta-feira.

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De fato, a posição diplomática africana sobre o conflito entre a Rússia e o Ocidente claramente perturba os ocidentais. Especialmente porque os analistas notaram muito simbolismo na recepção do presidente senegalês e atual presidente da União Africana (UA) em Moscou. Uma proximidade entre Putin e Macky Sall que rendeu a este último cerca de trinta desenhos em jornais ocidentais desde o fim de semana.

Seja como for, o artigo do New York Times (NYT) provocou algumas reações na África e em outros lugares. E parece que as partes interessadas realmente têm uma visão negativa das demandas americanas – em substância e em forma – que chegam no pior momento possível.

Trigo russo e a mensagem americana, um segredo aberto

No fim de semana, vários diplomatas africanos recusaram-se a comentar este "alerta" americano. Um dos cargueiros relatados pelos Estados Unidos, pertencente ao transportador marítimo Sampiyon Trabzonsport, já chegou a Douala, em Camarões. Outro, Kocatepe, está atualmente no porto de Dar es Salaam, capital da Tanzânia.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Tanzânia, Mindi Kasiga, disse: “Nossa posição (sobre o conflito russo-ucraniano, nota do editor) sempre foi neutra”.

O secretário de Relações Exteriores do Quênia e ex-embaixador das Nações Unidas, Macharia Kamau, disse estar "surpreso" com as exigências dos EUA. "Por que eles precisam nos avisar em primeiro lugar?" pergunta o diplomata. “Por que o Quênia compraria bens 'saqueados'? A suposição parece uma jogada de propaganda”, lamenta Kamau.

Um diplomata egípcio disse ao Journal de l'Afrique que seu país "não tem preconceito sobre as sanções dos Estados Unidos e da União Europeia contra a Rússia". "Se a diplomacia americana não passar pelos canais oficiais para expressar suas reservas, o Egito não é obrigado a comentar", continuou ele.

O diretor do HORN Institute for Strategic Studies, Hassan Khannenje, acredita que “qualquer pressão ocidental sobre os cereais fornecidos pela Rússia pode se voltar contra o Ocidente”. E para continuar: “Se o Ocidente puder oferecer alternativas, os países africanos ouvirão isso. Mas ficar histérico com isso só vai empurrá-los para os braços da Rússia.”

Um desafio diplomático de primeira ordem para as relações entre África e Rússia

Seria difícil ignorar que essa história surge no momento em que a Turquia está tentando encontrar uma solução para desbloquear as exportações de grãos ucranianos. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, chegou a Ancara na noite de terça-feira para discutir o estabelecimento de corredores marítimos no Mar Negro. No entanto, A Ucrânia expressou seus temores para levantar o seu bloqueio por medo de que as forças russas invadissem os portos em questão.

As conversações de Ancara são muito importantes para o presidente da UA e chefe de Estado senegalês Macky Sall, a quem o seu homólogo russo Vladimir Putin prometeu facilitar as exportações de trigo ucraniano para países africanos na semana passada.

A escassez de grãos atingiu duramente os países do norte da África, especialmente o Egito e a Tunísia. Mas também Somália, Benin, Senegal, RDC e Sudão. Entre planos de autarquia e preços em alta, a oferta de trigo russo e ucraniano é atualmente a prioridade de vários países africanos.

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Portanto, as discussões entre Ucrânia, Turquia e Rússia também são essenciais para a África. Mas para Moscou, será uma questão de cumprir uma promessa feita pessoalmente e publicamente por Vladimir Putin a Macky Sall. Isso o torna uma importante questão diplomática na qual a diplomacia africana de Moscou se baseia no curto prazo.

O artigo do NYT também finge ser um contraste para a diplomacia americana. "Os países africanos enfrentam potencialmente uma difícil escolha entre, por um lado, lucrar com possíveis crimes de guerra e desagradar um poderoso aliado ocidental (os Estados Unidos, nota do editor) e, por outro lado, recusar-se a comer comida barata de uma só vez quando os preços do trigo estão subindo vertiginosamente e centenas de milhares de pessoas estão morrendo de fome”, lê-se.

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